sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Arte Passageira e Ação Direta

Antes do ônibus Carne estacionar em nossa porta, acreditávamos que o 'Arte Passageira' nos traria um assunto muito importante para reflexão: o ônibus, o coletivo, o transporte, as distâncias. Começamos por aí, estimulando nossa memória através de leituras e contando histórias que se passaram dentro de coletivos.

Quando Lívia nos brindou com uma discussão sobre Arte Contemporânea, a perspectiva começou a mudar. Após a primeira visita, passamos uma tarde inteira conversando sobre Arte. Ninguém queria ainda falar sobre algo tão corriqueiro quanto os ônibus. O assunto era quem é o artista da sociedade nossa; o que são os museus e seus reservatórios (ou assaltos?) culturais; como percebemos a arte e como ela se inscreve no nosso cotidiano; alta cultura x baixa cultura - qual o embate entre tradição e arte contemporânea; como a obra de arte contemporânea permite resgatar a história (como foi o caso apresentado por Lívia nas receitas molotof das garrafinhas de coca-cola); entre tantos outros temas.

Essa oportunidade de discutir arte contemporânea nos trouxe a chance concreta de discutir engajamento e de querer provocar mudanças. O que de primeiro olhar era muito rico para nós – o tema do transporte coletivo – virou caminho de discutir nossa atuação política na comunidade. E uma intervenção política que parece a mais rica e de maior aceitação nos tempos que vivemos – a artística.

Não tínhamos ainda essa clareza ao desenvolver as atividades que seguiram a visita do ônibus. Foram os debates promovidos pelas visitas do 'Arte Passageira' que me fazem acreditar que o projeto tem o potencial de revelar para os jovens o caminho de intervenção na realidade que os inscreve.

As atividades que propusemos foram importantes para desvelar essa realidade. Um exemplo disso foram as histórias passadas em ônibus que os jovens contaram, revelando inúmeros casos de abusos sexuais que nunca são percebidos ou combatidos como tais. A escritura e o debate trouxeram a tona estes problemas. A paródia do poema Amor, de Luiz Fernando Veríssimo, mostrou ônibus que passam por cima da lei e de seus passageiros, atropelando-os, assaltando-os, chacoalhando-os a seu bel-prazer. Ônibus que flertam com carros de luxo, mas também o repelem, afirmando as diferenças entre o passageiro do carro esporte e o passageiro no 'vuco-vuco do busão', com 'cheiro de leitão'.

Aprofundar a percepção e o entendimento dos problemas que afligem nossa sociedade e nossos jovens é objetivo de qualquer projeto pedagógico digno de apreciação. Mas o 'Arte Passageira' vai além disso, seu potencial está em promover a mudança dessa realidade. A atuação dos jovens, convidando os passantes a entrar no Carne, colocou-os em posição ativa frente a comunidade: o Carne promoveu a ação direta.

consciência

"Se algum dia a vida lhe der ás costas, chute a bunda dela"...

carne

"Eu sou um nada que muito significa."

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

CARNE, EU?

Não sei o que me acontece. Acordei hoje muito diferente, como nunca havia me sentido antes. Lembrei que há alguns dias entrei num ônibus entitulado de "CARNE". Todo vermelho.
Percebi, pois, que não passo de uma carne, e que os mais estranhos sentimentos, entre eles o de tristeza, um "carne" também pode sentir. Estou triste, essa é a realidade, nua e crua, e que demorei a admitir.
Me pergunto: Carne, eu? E logo vem a resposta: Sim, claro! Se não, não estaria sentindo esta tristeza tão profunda que sinto desde que abri os olhos pela manhã.
Espero que ao me deitar o sono venha logo, e passará esta tristeza de carne vermelha, ou quase roxa.

Carne

O que me move? O que me comove? O que me faz questionar estando à beira da desigualdade... Fazendo parte de um capitalismo de uma massa de uma trista realidade A mesma realidade que me faz sentir em carne viva um avontade de espalhar um sentimento viceral de: amor amor pela vida amor pelo "ser humanizadamente humano" e artististicamente sendo personagens da vida real Carne em mim Carne em ti Carne em nós.

Andar de Ônibus

''O mundo é injusto, pois se fosse justo todos iriam andar apertados.'' ( Geilson)

Carmela Gross em "relação direta com o público"

Nós, membros da ONG Papel Jornal, fizemos uma entrevista com a artista plástica Carmela Gross. Vocês verão a partir de agora a conversa que tivemos em um ateliê no Instituto Tomie Ohtake. Carmela Gross cita um de seus conceitos nos primeiros instantes da nossa entrevista: - A relação direta com o público, a espontaniedade de sentimentos é fundamental em uma obra de arte. O mais interessante é que nós, da ONG, estávamos ali exatamente nesse sentido: naquele momento, Carmela era Obra-artista, desconhecida, elegante e jovial. Nós éramos público, tímidos, mas observadore, pois cada palavra, cada gesto, cada olhar, tudo era arte. Carmela diz que todo trabalho de arte é político. Isso vem dos significados de uma sociedade, de seus vínculos e interação. A artista também diz que a grande maioria de suas obras mesclam a simbologia (palavras) e sensibilidade (material). As palavras viram elementos em suas obras. Isso é fantástico! Penso que esses elementos não entregam a obra de "bandeija" para o apreciador, mas faz com que a obra seja coletiva. "Arte é coletiva", diz Carmela. Sendo assim, o artista não trabalha do nada e historicamente a obra só é obra se traz um objetivo dentro dela. "Arte é arte" e "o artista vira funcionário de sua obra", segundo Carmela nos relata. Ao entrevistá-la, foram muitas as impressões que tivemos, mas estas colocações foram que as que mais nos marcaram no que diz respeito à identificação de Carmela Gross enquanto artista contemporânea.

Cada ponto, um conto

Histórias de busão
O ônibus realmente é o meio de transporte em que todos se encontram, não porque querem, mas porque necessitam. Por maior poder aquisitivo que alguém possua, dificilmente passará pela vida sem ser transportado em algum veículo coletivo. E durante o entra e sai de massas humanas, acontece de tudo: assalto, fofoca, namoro, briga e principalmente, aperto e sufoco. Já vi muitos e muitos acontecimentos inusitados no ônibus. Vou contar aqui um deles. Rosana, uma amiga minha de 16 anos foi a um parque aquático com algumas colegas. Elas se vestiram conforme a ocasião e a minha amiga foi de mini-saia. Pegaram um ônibus e logo após entrar, um senhor de mais ou menos 60 anos, sentou-se ao lado dela. De repente, ela sentiu que havia uma mão entre suas pernas, olhou para o lado e o senhor fingia que dormia...Mero detalhe, com a mão “esquecida” em algum lugar. Claro que seu primeiro pensamento foi levantar-se, era melhor ficar em pé, do que naquela situação constrangedora.Mas ela ainda teve que tirar a mão dele antes de se levantar e foi o resto do caminho em pé. Demos boas gargalhadas com essa história, que eu claro, sempre faço questão de lembrar. Mas, na verdade o que eu gostaria de ter feito no lugar dela era partir pra agressão física, gritar, fazer um comentário desrespeitoso... sei lá, o tipo de tratamento que merece um velhinho safado desses!

ABUSO NO ÔNIBUS

Por Paulo Henrique Santos Nascimento Estava com minha família à bordo de um ônibus destinado a Santo Amaro, quando uma senhora de 63 anos, segurou-se ao veiculo que deu partida arrastando a pobre velhinha. A senhora subiu no ônibus e disse poucas e boas para o motorista, que apenas defendia-se com desculpas. Meia hora se passou e a adorável e ranzinza, expulsou uma garota de seu acento (que por sinal estava grávida) dizendo que a preferência era dela, não de "gente nova". Para cada curva, uma reclamação da idosa que dizia: "Vire a esquerda! Quer ir ao lugar errado?Obedeça-me, pois eu conheço todo esse lugar. Afinal tenho 63 anos!" Ao chegar no seu destino, na escada do ônibus, a velhinha ainda reclamava. Foi aí que os passageiros enfureceram-se e disseram: -Desce logo senhora! Deste fato eu tirei a conclusão que menopausa é fogo!

Terra da garoa e xingamentos

Cai a garoa sobre nós,
e nós escorremos xingamentos.
Presos entre veículos engarrafados,
xingamentos vão para todos os lados.
Do taxista para o motoqueiro,
que de pinguinho manda para perueiro,
e vai repingo para pedreste e passageiro,
e motorista também não fica seco.
E cai garoa,
e escorrem ofensas.
Então todos trovejam
em plena garoa.

Carne

O que me move? O que me comove? O que me faz questionar estando à beira da desigualdade... Fazendo parte de um capitalismo de uma massa de uma triste realidade A mesma realidade que me faz sentir em carne viva uma vontade de espalhar um sentimento viceral de: amor Amor pela vida Amor pelo "ser humanizadamente humano" e artisticamente sendo personagens da vida real Carne em mim Carne em ti Carne em nós

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

AI QUE DOR!

Aconteceu uma história muito chata e engraçada ao mesmo tempo comigo dentro de uma lotação. Estava chovendo e dei o sinal normalmente para ela parar, fiquei na porta porque a lotação estava repleta de pessoas. O motorista não me viu e fechou a porta. Conclusão: prendi a perna. Gritei muito de dor.
Todo mundo da perua gritava para ele abrir a porta. Eu ali na entrada, muda e desesperada com uma dor insuportável. Até que ele se "tocou" e abriu me pedindo mil desculpas. Entendi que não foi a intenção dele me machucar. Mesmo assim me deu uma vontade enorme de xingá-lo, mas me segurei. As pessoas que estavam na perua ficaram preocupadas comigo e eu vermelha de vergonha pelos berros que dei.
Para melhorar minha situação, ao chegar em casa, percebi que minha perna estava inchada, além de dolorida. Pelos dois dias seguintes não consegui andar direito. São os "micos" que pagamos nas lotações da vida!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Olga: amor de busão

Poema mais ou menos de amor: Eu queria, senhora Olga ser seu busão e guardar todo seu glamour depois que passar no catracão Que coisa louca O "vuco-vuco" do busão! Enquanto você pega sua carteira de oncinha Te olho com paixão Pena que não posso te oferecer salmon apenas sardinha (lotada eu sei) Tenho cheiro de leitão com todo o respeito Ah, te sentir tão apertadinha com suas joinhas de ouro Não se preocupe com o ladrão eu puxo o meu freio de mão. E sentir seu cheiro senhora seu perfume importado de Milão Meus preços nem se comparam a suas comprinhas seus sutiens com alcinhas seus casacos peludos como uma gata se encostam no meu colo duro. Ah, seus pés pisam em mim com puma leve... Você nunca me espera Mas hoje seu golf quebrado pneu furado você me deu crédito eu a integração Levo-te feliz E você com bicão Seu batom Seus cabelos e afins em um só tom. Naquele espaço me sinto um palhaço Entro em becos e vielas Sem saber o que faço Você é quem me dá o sinal com suas mãos de boneca de pano Até pareço ouvir um piano Você me larga Vejo-te no meu espelho descendo e correndo deixando em mim dores pisas com rancores Seus últimos passos no meu interior —te procuro como um cobrador Vou embora pelo corredor Você é meu segredo e sempre tenho medo de te sufocar senhora O golf pode ser seu amor Mas eu seu amante.
Poema mais ou menos de amor: Eu queria, senhora Olga ser seu busão e guardar todo seu glamour depois que passar no catracão Que coisa louca O "vuco-vuco" do busão! Enquanto você pega sua carteira de oncinha Te olho com paixão Pena que não posso te oferecer salmon apenas sardinha (lotada eu sei) Tenho cheiro de leitão com todo o respeito Ah, te sentir tão apertadinha com suas joinhas de ouro Não se preocupe com o ladrão eu puxo o meu freio de mão. E sentir seu cheiro senhora seu perfume importado de Milão Meus preços nem se comparam a suas comprinhas seus sutiens com alcinhas seus casacos peludos como uma gata se encostam no meu colo duro. Ah, seus pés pisam em mim com puma leve... Você nunca me espera Mas hoje seu golf quebrado pneu furado você me deu crédito eu a integração Levo-te feliz E você com bicão Seu batom Seus cabelos e afins em um só tom. Naquele espaço me sinto um palhaço Entro em becos e vielas Sem saber o que faço Você é quem me dá o sinal com suas mãos de boneca de pano Até pareço ouvir um piano Você me larga Vejo-te no meu espelho descendo e correndo deixando em mim dores pisas com rancores Seus últimos passos no meu interior —te procuro como um cobrador Vou embora pelo corredor Você é meu segredo e sempre tenho medo de te sufocar senhora O golf pode ser seu amor Mas eu seu amante.

Motel: Obra da Carne

As pessoas que passam todos os dias pela Rua Ivirapema, na região do Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, vêem sempre a mesma paisagem: crianças brincando, na esquina homens jogando dominó, mercadinho, bar, padaria, trânsito caótico... Neste mesmo endereço existe a ONG Papel Jornal (Associação de Incentivo às Comunicações), onde são desenvolvidas oficinas variadas, entre elas um projeto sobre arte contemporânea com base de discussão uma obra da artista plástica Carmela Gross que transformou um ônibus comum em um enorme pedaço de CARNE. Não é simplesmente um ônibus do qual dona Joana, seu Mário, o padeiro José e a moça da lojinha, estão acostumados a ver ou utilizar, é totalmente diferente, um enorme ônibus vermelho, com um letreiro um tanto sugestivo: CARNE. Afinal uma obra de arte contemporânea parada numa esquina de um bairro em uma comum sexta-feira, onde os moradores em sua maioria de renda mínima não têm acesso à arte. As pessoas que passavam se deparavam com inusitado. Apresentavam expressões diferentes, espanto, medo, admiração, curiosidade, outras nem perceberam o que estava acontecendo. O pessoal da ONG estava na expectativa de finalmente poder entrar no tão falado ônibus. Ao entrarmos um silêncio pairou no ar, os sentido se afloraram, nossos olhos a procura de adaptar-se com tanto vermelho e o ar carregado. Depois de algumas discussões, deparamos com um olhar de curiosidade de um jovem., que ficou um tempo a observar o que acontecia dentro daquele misterioso veículo. Abrimos a janela e tomei a iniciativa: _ Oi, você não gostaria de entrar? O jovem respondeu meio receoso. _ Não sei... isso é um motel ou uma boate? Quanto é a entrada? Tentamos convence-lo a entrar, mesmo assim ficou desconfiado e saiu meio que resmungando. No momento aquilo foi como dizem hilário, mas ao refletirmos sobre aquele curioso comentário tivemos uma prova de que a arte provoca em cada um sensações diversas, pensamentos, que não necessariamente precisam estar dentro de um conceito, um padrão. Só assim a arte cumpre seu papel que é de estabelecer relações com as pessoas.

. . . C a r n e . . .

Mundos vermelhos talvez não existam, mas eu conheci um... Quando entrei logo imaginei que seria fantasia, mas era real, e vermelho. Suas portas se abriram e junto a outros entrei. Senti calor, senti meus olhos se contorcerem e ao mesmo instante senti desfalecer as paredes. Já tirando algumas peças de roupa percebi o quanto aquilo me cheirava a paixão, daquelas avassaladoras, que vira tua vida ao avesso e teu mundo por inteiro. Foi aí que me situei, estava num mundo de sentimentos, exatamente no do amor, justificava-se a cor por este fato. Brisei e brisei novamente, e sem alucinógenos no meu sangue, na minha mente. Fiquei a andar por esse mundo, havia assentos, também vermelhos, no qual me sentei em um, a sensação me lembrava flutuar no mar. Neste instante vi um filme passar na minha frente, era uma retrospectiva dos momentos felizes que passei com namorados, ficantes e amantes, vi aqueles momentos tristes também, entretanto estes eram em menor escala, que se apagavam rapidamente. Deste modo uma felicidade quis entrar em mim, e ela conseguiu. Me senti confortavelmente anestesiada, assim como na música do Pink Floyd: relax relax. Mas então vi as luzes, raios verdes, que pouco a pouco, foram manchando o vermelho do meu mundo... Sim, o filme foi apenas fantasia da minha cabeça, mas este mundo vermelho existiu e se chamava carne, ônibus carne. Os raios verdes eram a luz de fora que entrou pela janela, que havia sido aberta. Logo desci, e ele caiu na estrada, foi embora... Meu coração, meu pedaço de carne que partiu. by Aricia Araújo

O que há no ônibus ?????

O ônibus é o local onde passamos boa parte do nosso tempo e onde mais temos contato com as pessoas. É por isso que podemos ter uma boa idéia de como pensam as pessoas e como está o mundo, só por atentarmo-nos aos comportamentos e conversas de cada passageiro.
Estava eu, recentemente, em um ônibus cheio e um homem estava, assim como eu, de pé. Muitas pessoas, como era natural, encostavam nele para chegar à porta e desembarcarem em suas paradas. Ele nada dizia e nem se mostrava incomodado.
Para minha surpresa, porém, comigo foi diferente. Ao passar por ele, sua atitude foi inesperadamente bruta, começando por palavras preconceituosas, como: "essa neguinha safada fica aqui se encostando nos outros".
Ao ouvir isso, meu sentimento foi a indignação. Fiquei sem saber o que fazer, não acreditava no que estava ouvindo.
"Como é?", perguntei. Ele retrucou com berros e vinha em minha direção como que para me machucar. Um rapaz que estava ao lado entrou em nosso meio e não o permitiu fazer nada contra mim.
Desembarquei com o gosto amargo da ignorância das pessoas. Como nossa sociedade pode se esconder por detrás da máscara da miscigenação e diversidade étnica, quando, na verdade, a sombra de um passado (não um "passado negro", como costumamos chamar um passado ruim, mas um "passado branco", onde somente os brancos tinham importância e o preconceito estava arraigado nas almas e impregnado no ar) insiste em nos perseguir e faz-se presente durante tantos momentos?
Quem disser que o preconceito não é forte no Brasil, vá para as ruas, pegue um ônibus e ouça as pessoas. Observe-as em seus comportamentos, olhares e gestos.
O ônibus não só nos leva aos lugares, mas também nos trazem o mundo e a sociedade, nem sempre belos.
Observe mais, e você verá que, nos ônibus, nossa visão de mundo ganha proporções reais e inimagináveis. No ônibus, ouvimos mais que conversas, ouvimos pensamentos; vemos mais que passageiros, vemos cidadãos e pessoas. Vemos refletida a nossa própria sociedade e sua ditadura silenciosa na qual a maioria se curva.

Não era comigo, então...

Estava eu na lotação que, como o próprio nome já sugere, estava “entupida” de gente, como de costume. Um senhor que aparentava uns trinta anos estava ao meu lado. Permanecera quieto durante toda a viagem. Pelo menos até aquele momento... Acontece que entrou na lotação um jovem que, ao passar por mim, tomou o cuidado de manter seu corpo próximo, por assim dizer. Incomodei-me, mas nada disse, apenas me afastei e fiz “cara de poucos amigos” como normalmente faço em situações inconvenientes. O senhor ao meu lado irritou-se espantosamente. Se eu fiquei quieta, ele agiu em minha proteção, quase como um “defensor de jovens indefesas”. Retrucou com o jovem o fato de esse estar me importunando, mostrando-se muito irritado. O jovem pareceu ainda mais nervoso e a discussão se formou. Iniciou-se, então, a “troca de elogios” entre ambos, com palavras impublicáveis. Repentinamente, o senhor deixou de lado as agressões verbais e deu um belo soco na cara do jovem. Este, depois de recuperar-se, repetiu o ato na direção do outro. A briga e a pancadaria em plena lotação estava formada. Daí em diante, o caos: motorista e cobrador reclamando, senhora tendo ataque de indignação, gente reclamando, gente rindo, gente separando e gente pondo lenha na fogueira. Eu, surpresa e até um pouco assustada, confesso, nada mais fiz além de dar o sinal e descer da lotação. Pegaria outra. Creio que o real motivo da briga era motivo algum. Algumas pessoas entram nos coletivos tão irritados, que brigariam por qualquer motivo e com qualquer pessoa. Egoísmo ou não, fui embora. Se queriam se matar, que se matassem. Como já diria um velho amigo, “não era comigo, então, não `tava nem aí”.

AMOR

Poema mais ou menos de amor:
Eu queria moça,
Ser sua lotação,
E sendo essa coisa
Poderia te fazer viajar
No destino da paixão.
Simplesmente te encantar
Sentindo toda a sua emoção.
Que desejo sem fim,
Querer te carregar dentro de mim,
Como um tesouro
E desfrutar de todo esse ouro.
Ser um pouco estabanado
Cometendo delitos contra a lei,
Bem da maneira como sei,
Meio enlouquecido,
Completamente apaixonado.
Esqueceria semáforos fechados
E pedestres mal humorados.
Por mim não passaria caminhão,
Porque só teria olhos para meu avião.
Sentir teu cheiro
O dia inteiro,
Como quero!
Meus bancos
Tantos,
Para um colo
Do seu consolo.
Seus pés no meu chão,
Com certeza perderia a direção.
Não!
Eu te protegeria de acidente
Até mesmo de poste.
Levar-te moça
Até sua casa
Ou mesmo sem falar
Para o lugar que sonhar,
De ar condicionado
E ao pé de seu ouvido
Tocando rádio
Com bem leve música.
Provaria-te que lotação também pode ser romântica.
Ainda que incrível,
Sem álcool ou diesel,
Moveria-me por uma anja do céu!
Você seria meu combustível,
Menos estranho
É no meu interior
Sua mão mexer no meu retrovisor,
Para ser teu espelho.
Meus puxadores
Receberiam-as com total maciez.
Desarrumando o meu ser,
Como seria lindo isso acontecer.
Manter seu corpo sufocado
Num estado
Sem te dar medo.
Somente temeriam teus amantes,
Porque atropelaria todos aqueles
Que tentassem te tirar da minha condução.
Nessa lotação
Você andaria sem permissão.