sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Motel: Obra da Carne

As pessoas que passam todos os dias pela Rua Ivirapema, na região do Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, vêem sempre a mesma paisagem: crianças brincando, na esquina homens jogando dominó, mercadinho, bar, padaria, trânsito caótico... Neste mesmo endereço existe a ONG Papel Jornal (Associação de Incentivo às Comunicações), onde são desenvolvidas oficinas variadas, entre elas um projeto sobre arte contemporânea com base de discussão uma obra da artista plástica Carmela Gross que transformou um ônibus comum em um enorme pedaço de CARNE. Não é simplesmente um ônibus do qual dona Joana, seu Mário, o padeiro José e a moça da lojinha, estão acostumados a ver ou utilizar, é totalmente diferente, um enorme ônibus vermelho, com um letreiro um tanto sugestivo: CARNE. Afinal uma obra de arte contemporânea parada numa esquina de um bairro em uma comum sexta-feira, onde os moradores em sua maioria de renda mínima não têm acesso à arte. As pessoas que passavam se deparavam com inusitado. Apresentavam expressões diferentes, espanto, medo, admiração, curiosidade, outras nem perceberam o que estava acontecendo. O pessoal da ONG estava na expectativa de finalmente poder entrar no tão falado ônibus. Ao entrarmos um silêncio pairou no ar, os sentido se afloraram, nossos olhos a procura de adaptar-se com tanto vermelho e o ar carregado. Depois de algumas discussões, deparamos com um olhar de curiosidade de um jovem., que ficou um tempo a observar o que acontecia dentro daquele misterioso veículo. Abrimos a janela e tomei a iniciativa: _ Oi, você não gostaria de entrar? O jovem respondeu meio receoso. _ Não sei... isso é um motel ou uma boate? Quanto é a entrada? Tentamos convence-lo a entrar, mesmo assim ficou desconfiado e saiu meio que resmungando. No momento aquilo foi como dizem hilário, mas ao refletirmos sobre aquele curioso comentário tivemos uma prova de que a arte provoca em cada um sensações diversas, pensamentos, que não necessariamente precisam estar dentro de um conceito, um padrão. Só assim a arte cumpre seu papel que é de estabelecer relações com as pessoas.

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